A Saúde Única em Periferias (SUP) compreende vivências, entendimentos e transformações decoloniais da saúde de coletivos multiespécie marginalizados. Esses coletivos têm uma particularidade: estão conformados por indivíduos de diferentes espécies que se relacionam entre si e com outros elementos do entorno, dando lugar a ambientes complexos nos quais as decisões políticas e as relações sociais não envolvem apenas aos humanos. Outros animais também fazem parte de um tecido social que se por um lado os beneficia, por outro lado os explora e utiliza para estruturar e legitimar hierarquias sociais.

Embora a SUP tenha relação com a conotação usual de “Saúde Única” e com a de “periferia” no Brasil, isto é, favela, a SUP não se reduz à aplicação dessa Saúde Única nas favelas.

No Brasil, Saúde Única é a tradução de One Health, um marco conceitual referido à relação indissociável entre a saúde humana, animal e ambiental. A Saúde Única tem se popularizado pela necessidade de considerar essa relação para abordar problemas de saúde pública que não se restringem aos humanos. Tipicamente, a Saúde Única alude a figuras infecciosas: pelo menos 75% das doenças infecciosas emergentes em humanos têm origem animal, 60% das doenças infecciosas humanas existentes são zoonóticas, 80% dos agentes com potencial bioterrorista são patógenos zoonóticos e; o abuso de antibióticos em animais e humanos leva a resistência antimicrobiana, uma das 10 principais ameaças à saúde pública no mundo. As pandemias, não apenas a da Covid-19, são um claro exemplo desse tipo de figuras. A Saúde Única tem ganhando ainda mais proeminência com sua consolidação intersetorial e internacional no acordo tripartite entre a Organização Mundial da Saúde Animal (OIE), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Por outro lado, a palavra “periferia” tem uma conotação particular no Brasil, sendo sinônimo de favela e, portanto, carregada tanto de estereótipos como de ressignificações que envolvem resistência, solidariedade e potência das comunidades marginalizadas nas cidades.

Na SUP, “Saúde Única” e “Periferias” são expressões polissêmicas e indissociáveis, com profundas implicações epistemológicas, éticas e pragmáticas introduzidas em dois manuscritos: Saúde Única em Periferias: biopolítica, determinação social e campo de práxis e Da Saúde Planetária moderna à promoção decolonial da Saúde Única em Periferias.

Ao não pressupor a ideologia capitalista, a SUP enxerga, para além de crises econômicas e políticas, uma crise civilizatória a ser superada. O objetivo da SUP não é buscar melhorias residuais de saúde em alternativas que preservam interesses elitistas, travestidas de único caminho possível, no qual as iniquidades convenientemente fabricadas parecem uma constante da natureza. A SUP também não pressupõe a ciência como empreendimento neutro em busca da verdade. No lugar disso, entende a ciência como instituição social sujeita a diversos interesses e a usa junto a outros saberes em favor do bem viver de coletivos multiespécie periféricos.

Multispecies Cat’s Cradle, por Nasser Mufti, 2011

Os saberes plurais são indispensáveis para enfrentar a complexidade envolvida numa crise civilisatória. Por um lado são necessárias outras epistemologias assentadas no Sul global para dar conta de alternativas sistêmicas, enquanto que por outro lado devem haver ações locais para concretizar a transformação em direção a tais alternativas. Por isso, determinação social da saúde 1 – não confundir com determinantes sociais da saúde – é um conceito chave na SUP.

Pela determinação social da saúde podemos pensar que os sistemas sociais estão organizados em níveis de complexidade, tendo num extremo o sistema-mundo, no outro extremo indivíduos, e no meio, famílias, comunidades, divisões territoriais, associações contratuais e outras instituições. Os níveis mais complexos se reproduzem regulando os menos complexos, enquanto estes, ao não estarem completamente regulados, têm autonomia relativa para produzir pequenas mudanças sistêmicas com poder acumulativo. O sistema-mundo reproduz estruturas coloniais às quais se opõem alternativas decoloniais com autonomia relativa. A SUP busca freiar a reprodução colonial e fomentar a transformação decolonial para promover assim perfis epidemiológicos saudáveis.

A SUP tem ainda outro significado, pois designa uma rede de pessoas, projetos e instituições dedicadas à promoção da Saúde Única em Periferias. A rede SUP foi criada pelo Professor Dr. Oswaldo Santos Baquero, que vinha acompanhando, antes de ser professor, movimentos culturais e periféricos do município de São Paulo, anos depois de ter feito o mesmo em Bogotá, Colômbia. Em 2017, já como professor, começou a frequentar reuniões mensais e outras atividades na comunidade Jardim São Remo, vizinha da USP. Em 2019 foi elaborado um projeto para o primeiro edital do Programa Aprender na Comunidade da USP e foi assim que começou a se pensar na SUP, diante da dificuldade de conciliar a Saúde Única convencional, a saúde pública e a epidemiologia moderna com as realidades periféricas. Apesar do estágio embrionário da rede SUP nesse primeiro projeto, as ações desenvolvidas foram reconhecidas com o primeiro lugar do Prêmio Aprendizagem Solidária – Experiências que transformam, ao qual concorreram 223 projetos brasileros de diversas áreas do conhecimento.

A SUP enquanto rede vem trabalhando principalmente desde o Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo (VPS-FMVZ-USP), o Grupo de Pesquisa das Periferias do Instituto de Estudos Avançados da USP (nPeriferias-IEA-USP) e o Jardim São Remo. Contudo, as ações da SUP estendem-se a outras periferias e a rede de colaboradores conta com outras instituições acadêmicas e coletivos artísticos.


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1: Veja as referências disponíveis na seção “Saiba Mais”. Para uma discussão da determinação social da SUP, veja os manuscritos citados acima.

Imagem panorâmica do nosso amigo Notable Salazar @salazarnotable