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Saúde Única em Periferias: biopolítica, determinação social e campo de práxis.


Diante da urgência para resolver inúmeros e severos problemas de saúde, perguntar que é saúde e quem pode e deve tê-la pode parecer uma perda de tempo. Entretanto, algumas respostas revelam práticas prevalecentes que desviam a atenção de problemas fundamentais, mantendo assim privilégios e aprofundando iniquidades de saúde. A Saúde Única em Periferias surge desses questionamentos e assume três sentidos interdependentes. O primeiro refere-se a atributos que determinam o bem viver e o sofrimento de coletivos multiespécie periféricos: estados, processos, realização de capacidades. O segundo problematiza dispositivos de marginalização que definem a saúde e quem pode e deve tê-la. O terceiro abrange práticas em espaços sociais mais-que-humanos em que, e pelas que, a Saúde Única é vivenciada, entendida e transformada. A qualificação da saúde como “única” não se refere à falta de pluralidade nem à simples agregação de fragmentos de saúde (humana + animal + ambiental), mas à complexidade da saúde num campo com lugares periféricos, decorrentes de margens para privilegiar os que estão dentro e legitimar a exploração dos que estão fora. A interação entre margens cria graus e tipos de privilégio e vulnerabilidade que materializam perfis epidemiológicos, enquanto a articulação de diferentes forças e necessidades periféricas apoia resistências coletivas para romper margens. A determinação social da saúde que explica esses perfis epidemiológicos é um conceito chave no movimento da saúde coletiva. Porém, esse movimento omite a dimensão mais-que-humana da determinação social; isto é, a Saúde Única em Periferias é um ponto cego da saúde coletiva. A cartografia da Saúde Única em Periferias tem necessidades específicas em termos de participação, pesquisa e políticas inclusivas para promover decolonialmente estilos de vida saudáveis. Neste artigo, o professor Oswaldo Santos Baquero mostra a emergência do campo da Saúde Única em Periferias e esboça uma cartografia periférica inicial, a partir da biopolítica mais-que-humana e de uma releitura da Saúde Única e da saúde coletiva.

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Da Saúde Planetária moderna à promoção decolonial da Saúde Única em Periferias.


Saúde Planetária é um conceito que emergiu recentemente no Norte global para se referir aos efeitos globais que a degradação de sistemas naturais tem na saúde humana. O conceito faz um chamado por ações urgentes e transformadoras. Porém, os problemas e o chamado para solucioná-los estão longe de serem novos. A Saúde Planetária é uma abordagem colonial que desconsidera conhecimentos alternativos que ao longo de milênios têm acumulado experiências de estilos de vida sustentáveis e holísticos. Reforça o monólogo da modernidade sem reparar que as ameaças à “saúde planetária” residem justamente nessa abordagem. Insiste na imposição de suas receitas em periferias políticas, epistemológicas e ontológicas criadas pela colonialidade. O giro decolonial da América Latina tem uma longa tradição no que poderia se chamar “ações transformadoras”, indo além de crises políticas e econômicas para enfrentar uma crise civilizatória. Desconstrói, junto a outros movimentos decoloniais, a falácia de um mundo dual em que o Norte global produz epistemologias, enquanto o Sul global pode apenas se beneficiar delas. A Saúde Única em Periferias é um campo de práxis onde a saúde de coletivos multiespécie e do ambiente do qual fazem parte é vivenciada, entendida e transformada, em periferias simbólicas e geográficas decorrentes de dispositivos de marginalização. A presente pesquisa mostra como a promoção decolonial da Saúde Única em Periferias ajuda a entender e avançar práticas plurais, para atender realidades locais em contextos globais. Também propõe sete ações para realizar essa promoção. A pesquisa foi desenvolvida por Oswaldo Santos Baquero, Mario Nestor Benavidez Fernández (Universidad de San Buenaventura, Colômbia) e Myriam Acero Aguilar (Universidad Nacional de Colombia).


Mapa Invertido da América do Sul. Joaquim Torres Garcia.

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Vivências da pandemia na São Remo: um discurso coletivo.


O Jardim São Remo é uma comunidade da Zona Oeste do município de São Paulo, onde a vivência da pandemia de Covid-19 se assemelha à de outras periferias urbanas em alguns aspectos e difere em outros. Na comunidade, as vivências também misturam elementos comuns a todos os seus integrantes e particularidades de cada grupo, família e indivíduo. Entre janeiro e abril de 2021, houve uma construção coletiva para retratar vivências de alguns moradores da São Remo, considerando diversas experiências e memórias registradas em entrevistas ou durante a aplicação de um método fotográfico de pesquisa comunitária conhecido como Photovoice.

O texto a seguir é um discurso coletivo composto por vários desses registros, cuja construção apoiou-se parcialmente em algumas ideias de um método denominado discurso do sujeito coletivo. Nem todos os registros foram utilizados e a forma de articulá-los foi uma entre muitas. O resultado traz nuanças, afetos e retratos que reforçam o que parece óbvio e continua negligenciado e expondo uma contradição crônica: as comunidades marginalizadas continuam sofrendo desproporcionalmente os danos coletivos, com o qual essa marginalização se aprofunda e as crises se intensificam. Mas não é só isso. O resultado traz também aprendizados e pontos de vista necessários para superar o mal-estar crônico.

Alguns fragmentos do texto foram modificados, principalmente para concatenar as ideias, acrescentar termos implícitos no contexto original e aumentar a concordância de número e gênero entre frases de registros diferentes. Essas modificações estão em cinza.

Vale salientar que apesar de termos usado alguns elementos do Photovoice e do discurso do sujeito coletivo, este documento não relata a aplicação desses métodos nem o que resultaria dessa aplicação. Outros documentos abordarão aspectos metodológicos e seus respectivos resultados, valendo-se de registros adicionais e reaproveitando alguns dos utilizados aqui.

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Vulnerabilidade social, esporotricose e lugares a serem priorizados.


A esporotricose é uma doença causada por fungos, ou seja, é uma micose. Além de infectar gatos e, em menor escala aos cães, pode ser transmitida destes animais aos humanos, sendo portanto uma zoonose. Quando a doença é negligenciada, lesões que poderiam ser oportunamente tratadas avançam como ilustrado numa das fotos abaixo. As epidemias de esporotricose vêm acometendo o Rio de Janeiro e outras cidades das regiões Sul e Sudeste, especialmente o município de Guarulhos (SP), onde o Centro de Controle de Zoonoses detectou o primeiro caso na favela dos Pallets em 2011 (na época em que sofreu reintegração de posse e um incêndio que matou um bebê e um adolescente) e desde então relatou um crescimento exponencial até 2017, príodo analisado na presente pesquisa. Por meio desta última identificaram-se as áreas (setores censitários) de Guarulhos que de devem ser priorizadas de acordo com predições de modelos estatísticos espaciais, e encontrou-se evidência compatível com um processo que explica por que as epidemias de esporotricose afetam predominantemente as áreas mais vulneráveis. A pesquisa foi realizada pelo Laboratório de Epidemiologia e Bioestatística do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (LEB-VPS-FMVZ-USP) por Ligia Scuarcialupi, Fernando Pereira (CCZ de Guarulhos), e Oswaldo Santos Baquero.

Fotos: Fernando Pereira, CCZ de Guarulhos.



Foto: Folha de São Paulo, Rivaldo Gomes.



Processo causal compatível com a maior frequência da esporotricose nas periferias urbanas. Ver na pesquisa a explicação detalhada.



Casos de esporotricose felina notificados entre 2011 e 2017 no município de Guarulhos.



Os setores censitários (divisões territoriais) estão agrupados por grau de vulnerabilidade (IPVS de 1 a 6). Quanto maior o IPVS, maior a vulnerabilidade. A densidade e o total de casos notificados de esporotricose felina são sistematicamente maiores nos setores mais vulneráveis. Guarulhos, 2011 – 2017. IPVS: Índice Paulista de Vulnerabilidade Social do Estado de São Paulo.

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Violência interpessoal, abuso animal e vulnerabilidade social no município de São Paulo.


Há múltiplos estudos relacionando a violência entre humanos e a violência de humanos contra animais, sendo essa relação conhecida como “o elo” (the Link). A maioria de tais estudos atribui a violência a características individuais do perpetrador (usa os indivíduos como unidade de análise), ignorando ou deixando em segundo plano o contexto sociocultural em que a violência ocorre. É muito o que temos aprendido com essa abordagem, mas também é bastante o que não nos permite entender. Por essa razão, esta pesquisa indagou numa escala geográfica o efeito do grau de vulnerabilidade social na relação entre a quantidade de notificações de violência interpessoal e de abuso animal no município de São Paulo. Além de identificar os distritos administrativos mais afetados, a pesquisa encontrou que quanto maior a vulnerabilidade, maior a quantidade e força da associação entre os dois tipos de notificações, sempre levando em conta o tamanho populacional dos distritos. Portanto, pode se pensar em sinais de alerta referenciados entre si: maior vulnerabilidade social indica maior probabilidade de ocorrência de ambos tipos de violência, enquanto maior ocorrência de um tipo de violência indica maior probabilidade de ocorrência do outro tipo e de se tratar de um contexto social mais vulnerável. A recomendação de usar a violência contra animais como sinal de alerta da violência interpessoal e vice-versa no nível individual já é conhecida, sendo a novidade desta pesquisa a extensão da recomendação para níveis geográficos, considerando também a vulnerabilidade social. É importante salientar que os achados desta pesquisa não permitem dizer com que frequência os perpetradores da violência contra animais são os mesmos da violência interpessoal, como também não permitem dizer se esses perpetradores tinham atributos individuais de vulnerabilidade social. Um distrito como um todo pode ser vulnerável, enquanto algumas das suas subdivisões geográficas não. Além do mais, a vulnerabilidade do contexto geográfico só constitui uma fração da vulnerabilidade dos seus residentes. A pesquisa foi desenvolvida pelos pesquisadores do Laboratório de Epidemiologia e Bioestatística do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (LEB-VPS-FMVZ-USP) Oswaldo Santos Baquero, Fernando Ferreira, José Soares Ferreira Neto e Jason Ardila, e pelo Capitão da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Marcelo Robis Francisco Nassaro.

Notificações de violência interpessoal e de violéncia contra animais nos distritos administrativos do município de São Paulo, 2011-2012. Os paineis diferem no grau de vulnerabilidade (IPVS de 1 a 4). Quanto maior o IPVS, maior a vulnerabilidade e a quantidade de notificações de ambos tipos. A linha azul e a faixa cinza mostram a tendência da relação positiva entre os tipos de notificação. IPVS: Índice Paulista de Vulnerabilidade Social.

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Dinâmica espaçotemporal e fatores de risco da leptospirose humana no Brasil.


Entre os anos 2000 e 2016 houve 63.302 casos e 6.064 óbitos por leptospirose humana notificados no Brasil. Nesta pesquisa identificaram-se os Estados brasileiros a serem priorizados com base no número de casos e óbitos nesse período. Adicionalmente, avaliou-se a influência de fatores climáticos e socioeconômicos na dinâmica de ocorrência da doença. Para isto usaram-se imagens satelitais e medidas relativas ao manejo do lixo, ao analfabetismo e à pobreza. O Estado de Acre foi sistematicamente o mais afetado, demandando uma alocação de recursos muito maior que os Estados restantes. Esta pesquisa foi desenvolvida pensando em priorizar os Estados mais afetados, porém, sem ter ainda iniciado a conceituação da SUP. Concentrou a atenção em aspectos estatísticos e não discutiu as implicações da hipótese proposta e dos resultados. A pesquisa foi desenvolvida pelos professores Oswaldo Santos Baquero, e Gustavo Machado (Universidade da Carolina do Norte).


Dinâmica espaçotemporal do excesso de risco de casos de leptospirose humana nos Estados brasileiros entre 2000 e 2016. Esse excesso de risco [Pr(RR > 1)] representa a probabilidade dos Estados terem mais casos que a média de casos no Brasil, considerando os respectivos tamanhos populacionais.



Índice de priorização (PI) dos Estados, conforme a quantidade relativa de casos. Um estão com um PI de 100 tem o dobro de prioridade que um Estado com um PI de 50.



Processo causal compatível com a ocorrência de casos e óbitos de leptospirose humana. Ver na pesquisa a explicação detalhada.

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